O cultivo organizacional

Há algum tempo tenho refletido sobre algo que, para mim, se tornou evidente: Jesus sempre ensinou sobre a vida, e muito pouco sobre religião.

Ele falava de solo, de sementes, de colheita. Falava de processos. Falava de consciência. Falava de responsabilidade. E, se observarmos com atenção, falava também de cultura.

Quando trago espiritualidade para o ambiente organizacional, não me refiro a rituais ou crenças. Refiro-me à essência. À qualidade da conexão que temos conosco e com o outro. À consciência com que ocupamos os espaços. Principalmente num tempo em que, por força da lei, somos chamados a diagnosticar riscos psicossociais nas empresas.

Antes da lei, já existia o solo. E o solo sempre falou.

Durante dois anos me dediquei quase exclusivamente ao atendimento individual, integrando Nova Medicina Germânica (NMG) e Programação Neurolinguística (PNL). Nesse período, pude observar com profundidade como conflitos emocionais vividos no trabalho impactam o corpo, o comportamento e as relações.

O ambiente organizacional não é neutro. Ele forma, deforma ou transforma.

Vi pessoas adoecendo silenciosamente por conta da maneira como eram tratadas por líderes. Vi profissionais competentes sendo sufocados por ambientes hostis. Vi pessoas suportando humilhações pelo salário no fim do mês, e não há julgamento nisso. Sobrevivência é um instinto ancestral. Lutamos por ela há séculos.

Mas também vi organizações que são solo fértil. Lugares onde existe pressão, metas e cobrança, porque empresa é para gerar resultado, mas onde há respeito, desenvolvimento e pertencimento.

E foi nesse contraste que as parábolas ganharam um novo significado para mim.

O solo

Jesus contou sobre um homem que saiu a semear.

Parte das sementes caiu à beira do caminho e foi comida pelos pássaros.
Parte caiu em solo rochoso e secou sob o sol.
Parte caiu entre espinhos e foi sufocada.
E parte caiu em terra fértil, produzindo trinta, sessenta e até cem vezes mais.

Se ele fosse um consultor organizacional hoje, talvez estivesse falando de cultura.

Há empresas que existem no mercado, mas estão desconectadas de sua própria razão de existir. Missão declarada, mas não vivida. Comunicação ruidosa. Processos frágeis. Disputas de ego. Ali, qualquer talento que chegue terá dificuldade de prosperar.

Outras investem em treinamentos, palestras motivacionais, discursos inspiradores. A energia sobe por alguns dias. Depois tudo volta ao padrão anterior. É o solo raso: entusiasmo sem raiz.

Há ainda empresas altamente estruturadas, cheias de métricas, certificações e estratégias. Mas a política interna, a vaidade e os jogos de poder criam um ambiente sufocante. Espinhos organizacionais impedem que o melhor floresça.

E existem, sim, solos férteis.

Ambientes onde há disciplina e humanidade. Onde desenvolvimento é prática, não discurso. Onde quem cresce é acompanhado. Onde quem não entrega é desligado, sem romantização, mas com consciência.

Porque cultura não é permissividade. Cultura é cultivo.

O joio e o trigo

Mas o solo não é o único fator.

Jesus também falou do joio e do trigo.
Nem tudo que cresce é trigo. Nem todo trigo cresce em qualquer solo.

Trigo em terra ruim não prospera.
Joio em terra fértil compromete a colheita.

Nas organizações, isso é evidente. Há talentos que não florescem porque o ambiente não permite. E há profissionais que parecem trigo, mas não entregam resultado, sabotam processos e drenam energia coletiva.

A parábola ensina algo importante: não se arranca o joio impulsivamente, porque pode-se comprometer o trigo. Existe tempo e maturidade para cada decisão.

Nas empresas, isso também é verdade. Não se trata de sair “cortando” pessoas a qualquer custo. Mas também não se trata de colecionar incompetências por medo de demitir.

Eu já fui desligado. Já desliguei. Você provavelmente também. Isso faz parte do ciclo do trabalho.
Colaborador que pede desligamento também demite o patrão.

O mundo corporativo não é um templo. É um campo de cultivo.

Uma nova consciência

Vivemos um tempo em que tecnologia e humanidade precisam caminhar juntas. Produzir mais não pode significar adoecer mais.

Quando falo de espiritualidade organizacional, falo de consciência. Falo de líderes que entendem que cultura não se impõe, se cultiva. Falo de ambientes onde o propósito é regado diariamente. Falo de empresas que geram resultado, mas também geram legado.

A empresa é solo.
As pessoas são sementes.
A cultura é o cultivo.
O resultado é a colheita.

Antes de perguntar que tipo de solo é a sua organização, talvez a pergunta mais honesta seja:

Você tem sido trigo ou joio?

Permita-se plantar trigo em terra fértil.

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